Comentários: Memória de Guerras

“For the Love of God”

“Walking in the fine line
Between pagan and christian”

Ao pensar em guerra, em sofrimento e violência, nada mais vem a nossa mente se não questões. São questões não respondidas, algumas questões que eles responderam mas não são escutadas, algumas questões que foram escutadas mas não mudaram o curso final da luta visto que a batalha novamente aconteceu.

Mas afinal, por quê criamos guerras?

Por que a guerra machuca tantas pessoas? Por que lutamos muitas vezes por causas desumanas e estúpidas? Por que há quem queira oprimir outros povos e ainda vê prazer nisto? Por que utilizamos nossa inteligência para criarmos armas? Por que somos impelidos a atacar o mais fraco? Por que há tanta ganância e inveja por algo que não o pertence? Por que lutamos contra as diferenças étnicas, culturais, raciais, religiosas?

Por que nós atacamos nossos semelhantes e a nós mesmos?

Sou jovem e acredito que não sou capaz de responder à estas questões, ainda que as respondesse, minhas respostas seriam imprecisas e incorretas, mesmo se elas mudassem a história de alguns, a dor não deixaria de existir.

“Combater em cólera e tensão, guerra, esta em minha vida pensava nunca ter razão.”

Pouco sei por que os homens lutam ou se há razão nisto. Sei porém que criar conflitos é fácil e, para muitos, é a solução plausível.

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Não haverá vencedores

Por MARCELO FREIXO

Dezenas de jovens pobres, negros, armados de fuzis, marcham em fuga, pelo meio do mato. Não se trata de uma marcha revolucionária, como a cena poderia sugerir em outro tempo e lugar.
[…] As imagens aéreas na TV, em tempo real, são terríveis: exibem pessoas que tanto podem matar como se tornar cadáveres a qualquer hora. A cena ocorre após a chegada das forças policiais do Estado à Vila Cruzeiro e ao Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro.
O ideal seria uma rendição, mas isso é difícil de acontecer. O risco de um banho de sangue, sim, é real, porque prevalece na segurança pública a lógica da guerra. O Estado cumpre, assim, o seu papel tradicional. Mas, ao final, não costuma haver vencedores.
Esse modelo de enfrentamento não parece eficaz. Prova disso é que, não faz tanto tempo assim, nesta mesma gestão do governo estadual, em 2007, no próprio Complexo do Alemão, a polícia entrou e matou 19. E eis que, agora, a polícia vê a necessidade de entrar na mesma favela de novo.
Tem sido assim no Brasil há tempos. Essa lógica da guerra prevalece no Brasil desde Canudos. E nunca proporcionou segurança de fato. Novas crises virão. E novas mortes. Até quando? Não vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz. Essa analogia à data histórica da 2ª Guerra Mundial não passa de fraude midiática.


Essa crise se explica, em parte, por uma concepção do papel da polícia que envolve o confronto armado com os bandos do varejo das drogas. Isso nunca vai acabar com o tráfico. Este existe em todo lugar, no mundo inteiro. E quem leva drogas e armas às favelas?
É preciso patrulhar a baía de Guanabara, portos, fronteiras, aeroportos clandestinos. O lucrativo negócio das armas e drogas é máfia internacional. Ingenuidade acreditar que confrontos armados nas favelas podem acabar com o crime organizado. Ter a polícia que mais mata e que mais morre no mundo não resolve.
Falta vontade política para valorizar e preparar os policiais para enfrentar o crime onde o crime se organiza -onde há poder e dinheiro. E, na origem da crise, há ainda a desigualdade. É a miséria que se apresenta como pano de fundo no zoom das câmeras de TV. Mas são os homens armados em fuga e o aparato bélico do Estado os protagonistas do impressionante espetáculo, em narrativa estruturada pelo viés maniqueísta da eterna “guerra” entre o bem e o mal.
[…] É preciso construir mais do que só a solução tópica de uma crise episódica. Nem nas UPPs se providenciou ainda algo além da ação policial. Falta saúde, creche, escola, assistência social, lazer.
[…] Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para a segurança pública terá de passar pela garantia dos direitos básicos dos cidadãos da favela.
Da população das favelas, 99% são pessoas honestas que saem todo dia para trabalhar na fábrica, na rua, na nossa casa, para produzir trabalho, arte e vida. E essa gente -com as suas comunidades tornadas em praças de “guerra”- não consegue exercer sequer o direito de dormir em paz.
Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no Judiciário…

Texto retirado da Folha de São Paulo – Tendências e Debates – dia 28 de novembro de 2010

Desejo a vocês uma boa epifania.

~Luiz Felipe

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Sobre Lipeh

Caminha, toca, pensa e repara. Aprecia o que é incomum e gosta de brincar com palavras, sons. Convida as pessoas a buscarem epifanias, usarem os sentidos como inspiração de vida e dormirem felizes caso não alcancem-nas. Valoriza a beleza diferente, o incerto, a família, os erros, o ser humano. O Ser Humano.
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3 respostas para Comentários: Memória de Guerras

  1. Guil5566 disse:

    O cara tem uma guitarra elétrica funcionado no meio do nada, cheater.

    Enfim, é um momento em que vou contra o texto.
    É necessário uma guerra maior contra os que estão no poder? claro, mas quanto à favela, quem optou por comprar armas e realizar o tráfico foram os moradores.

    Sim, há inocentes morando, mas também há muitos que pela comodidade de serem isentos de muitas coisas, preferem se manter lá enquanto têm seus empregos.

    A justiça está na mão do poder, o poder em quem elegemos, ou seja, no eleitor.
    Todas as mudanças, em foco de educação e saúde, coisas que poderiam talvez desfazer esse contexto criminal das favelas, estariam resolvidas com um bom apoio vindo de quem está no alto escalão.

    Mas isso iria acabar com a violência? Traficantes serão sempre traficantes e colocarão os moradores da região em risco. Quem viu o vídeo com casas com decoração de mansões entende o quanto eles conseguem lucrar, isso sem nem contar com a grana que gastam em armamento.

    O que é necessário? Encontrar quem alimenta o fluxo, e cortar as raízes pouco a pouco.
    A violência não é das formas mais eficazes, nem das mais aconselháveis, mas é a única que o povo respeita. Violência contra o bolso da galera por exemplo é o que faz as pessoas respeitarem leis, se não fosse as multas geral estaria cagando e andando. Abuso de poder é uma violência de certa forma. Ofensa é violência.

    Violência física contra quem merece morrer é algo no mínimo justo. E sim, merece, ou vai dizer que quem coloca a vida de vários em risco, mata inocentes, causa terror em famílias entre outros crimes merece algum direito humano? Merece o de ficar calado, as vidas que ele tirou, as pessoas envolvidas… As sequelas nunca irão desaparecer, mas bastando um bom advogado e atuação fica tudo bem para ele? O escambau.

    A guerra dificilmente terá um fim, mas vale a pena ficar de pé e acompanhar e, caso se interesse, lutar pelo o que acreditar.

  2. Steve Vai, essa música é foda demais puts.

    Porque criamos as guerras? Simples, dinheiro, interesse, poder. Ou você acha realmente que o atentado de 11 de setembro foi só para matar pessoas? Que nada, matar pessoas não é o que realmente eles querem, o problema que é o único modo de chegar no que eles querem.

    Você acredita que o homem foi a lua?
    Você acredita no socialismo Russo? (Dizem que por lá estão criando essa idéia na cabeça das pessoas novamente)

    Sobre o que aconteceu no Rio.
    Sério, você não acha que já deviam ter feito isso bem antes não? Hoje em dia nem se falam mais nada do que aconteceu no Rio e aposto todas minhas fichas que na favela onde invadiram ainda existe crime organizado, ainda existe assaltos, tudo está la ainda.
    Cara, isso é tudo uma guerra, guerra política.
    Posso ter viajado nessa parte.

  3. Lipeh disse:

    A violência pode até ser uma justa em alguns casos.
    Mas quem aplica-as tem o direito de violentar alguém e a ciência do que está fazendo?
    A justiça já puniu vários inocentes, não foi?

    Em fato, não sou contra a prisão e condenação de atos ilegais, mas acredito que deve-se ser muito bem pensada qualquer decisão com relação a isto.
    Pois como a justiça depende diretamente do ponto de vista, ou de um senso comum, não há como garantir que ela sempre seja cumprida.

    Sobre o Rio de Janeiro, a Copa do Mundo está vindo aí, o Lula precisava sair com um saldo positivo, então…

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